quinta-feira, 14 de junho de 2012

4 - O AMOR HESITA


Por Francisco Moleiro

Era um daqueles fins de tarde de Outubro em que parece que o Verão não se quer ir embora, que nos saúda como velhos amigos. João, toda a vida conhecido como "o veneno",caminhava lentamente de volta a casa, depois de um dia de pesca.
Tinha saído de casa pelas seis da manhã, nada de especial para um septuagenário em forma, como ele. A mulher só queria que não a acordasse, quando saía para aquelas pescarias.
Quarenta e nove anos juntos e apenas se chateava com ele por causa do vício da pescaria.
Também, era a única coisa com que se chateavam... Tinha ganho a sua alcunha por ser muito calado e, nas raras vezes em que falava, ser muito sarcástico e incisivo. Por isso sempre se entendera tão bem com a Fernanda. Ela nunca se calava, mas não tinha um pingo de maldade no corpo.
Enquanto avançava, reparou que as folhas já se desprendiam calmamente dos plátanos que ladeavam o caminho até ao Bairro da Paz, onde morava.
A Fernanda costumava sempre assar o peixe. Ele preferia grelhado, mas que fazer?
Olhou para o céu e viu aquele padrão tão familiar da migração de tantas aves em busca de paragens mais a Sul...
Dois filhos criados e uma mão cheia de netos, já a contar com o mais novo ainda a um mês de nascer. Trabalhámos bem, nós...
A descer a encosta até ao caminho da quinta da Palma, seguia o ribeiro, enfraquecido pelo calor do Verão, mas mais forte do que há três anos, quando quase secara.
Os miúdos já estão criados, saíram-se bem. Criámo-los como deve ser, não haja dúvidas.
Riu-se para si próprio a lembrar-se das caras deles agarrados às saias da Fernanda quando se chateava e saía do seu mutismo.
No último trecho de estrada até casa, reparou num campo com flores silvestres, metade amarelas e metade roxas.
Entrou em casa pela porta do quintal depois de pousar a cana e as botas. Sentou-se a observar a cadeira onde, até há três semanas, estava sentada a Fernanda, antes do enfarte, antes de tudo.
Olhou para a janela a ver as nuvens laranja-avermelhadas amontoadas para lá do mar.

Não, pescar já não lhe dava o mesmo prazer. Os filhos já não precisavam dele. Saíram-se bem, convenceu-se outra vez.

Um melro lançou um trinado saudoso lá fora, como se pedisse perdão por ir dormir.


Hão-de perceber...

1 comentário:

  1. Já percebi que captas muito bem os momentos banais do quotidiano e os tornas importantes, como se eles guiassem o pensamento da personagem e determinassem as decisões que tomam. Gosto disso.
    Mas, como «caloiro» (apenas no grupo, não na escrita) vais ter de escrever mais para nós podermos avaliar como deve ser. ;) ;)
    Porque letra tens tu! Olá se tens!
    Um abraço, bem vindo e, claro, parabéns! mj

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