Por Carmita
Porque sucedem coisas más às pessoas boas, ninguém sabe, mas quis o
destino que assim fosse com Magnólia. Não era um nome comum para uma rapariga
nascida no seio de uma pacata vila. Mas nada em Magnólia era comum. De estatura
média, tinha os cabelos compridos de um negro escuro ondulado, a pele macia nas
feições delicadas, enfeitadas pelo olhar cristalino e penetrante.
Quando completou dezoito anos de idade, sentiu-se feita mulher e
lançou-se na conquista do que tinha a certeza ser seu de direito. Como flor
desabrochada que não teme ser notada, saiu de casa dizendo que ia à procura da
felicidade. Era escusado dissuadi-la. Emanava uma força de guerreira
intimidante e já ninguém a parava. E assim foi, qual Branca de Neve para o meio
da floresta, mas ia não porque fugia, mas porque assim queria.
Todavia a vida prega partidas aos mais audazes e quis a sorte que
Magnólia se apaixonasse por um homem comum, simples, quase rude nos traços e
violento nos gestos. O que via Magnólia naquela personagem era uma incógnita
para quem o conhecia tão áspero, seco, descortês. Dizer que o amor é cego era
argumento para alguns, outros inventavam histórias de uma obsessão desmedida
induzida por feitiços e magia, outros lamentavam-se apenas, antevendo o pior.
Quanto mais resistência ofereciam a esta relação de Magnólia com aquele
homem, mais ela mergulhava nas teias envolventes daquele amor que a consumia,
hipnotizando-a ao ponto de se esquecer de si. Admirava-lhe as mãos fortes, as
costas largas e musculadas, o cabelo despenteado, a barba rija, o olhar
perdido.
Magnólia casou. No fundo talvez suspeitasse que pudesse não ser tão
feliz como imaginara. Talvez aquele pequeno nó no estômago no dia em que
caminhava em direção ao altar não fosse devido aos nervos ou à felicidade
contida, talvez fosse uma forma de aviso de como se precipitava por completo e
se enfiava na toca do lobo.
Casou.
Naquele mesmo dia, depois da festa, Magnólia teve a primeira prova de
como se tinha enganado. Chegados à pequena casa de família onde iriam morar,
ele ordenou-lhe que se despisse, assim, numa única palavra e num tom
monocórdico. Despe-te. Ainda sob efeito da festa Magnólia sorriu,
tomando tempo para ajeitar o cabelo, enquanto arrumava os sapatos a um canto do
quarto. Despe-te, já te disse.
Magnólia voltou-se e encontrou o olhar colérico dele, e sentiu medo. O
medo paralisou-a e aumentou a raiva dele. As mãos fortes rasgaram-lhe o
vestido, as costas largas e musculadas empurraram-na para a cama, o cabelo
despenteado bateu-lhe na alma, a barba rija rasgou-lhe o orgulho, o olhar
perdido matou-lhe o amor.
O que se passou de seguida não pode ser contado aqui, mas naquele dia
Magnólia sumiu. Nunca mais a viram naquela mulher apagada, apática, oca,
transparente na que se tornou. Sempre que alguém ganhava coragem e lhe
perguntava o que tinha acontecido à Magnólia de antigamente, forte e determinada,
decidida e dona do seu destino, dirigia o seu olhar vazio para o nada e
respondia, Magnólia é nome de flor.

E Carmita é nome de menina prendada na escrita. Rima e é verdade. Pois aqui está uma história triste com um final infeliz, como se da realidade se tratasse.
ResponderEliminarE a Carmita escreveu bem, as palavras encheram-se de significado e aqui a leitora ficou comovida com a simplicidade da receita.
Sim, Carmita é nome de escritora.
Célio Passos13 de Julho de 2012 08:26
ResponderEliminarMagnólia é nome de flor. É uma flor sensível, cai facilmente, tal como a Magnólia do conto nas mãos malévolas de um homem. Teve a coragem de se desprender daquela vida, e seguir em frente, com a simplicidade de uma flor.
Um belo conto muito florido.
Carmita15 de Julho de 2012 09:11
ResponderEliminarObrigada. Fico sensibilizada pelos vossos comentários, e empolgada por terem gostado. Sabe bem saber que nos lêem com apreço.
Parabéns pela ilustração. Não a imaginei tão ousada. :)
Obrigada.