segunda-feira, 16 de julho de 2012

6 - A CARTA POR GODIVA




                                                                                          Painzela, 14 de Setembro de 1895


Caro José Eduardo,
Quando hoje pela manhã me trouxeram o correio e vislumbrei por entre os subscritos um que pela letra adivinhei ser seu, o meu coração disparou numa tal correria que por instantes temi não o conseguir acompanhar

Que grande alegria, meu querido José Eduardo, confirmar nas suas palavras aquilo que os nossos olhares há muito nos vinham timidamente dizendo
Sei que peco ao sorver cada uma das suas palavras com a avidez de quem finalmente percebe existir um oásis para além do deserto, mas como evitar este tumulto que abalou todas as minhas certezas
Confesso-lhe que trago a memória possuída por aquele Pôr-do-Sol em que o Universo conspirando a nosso favor nos deixou sós à beira-mar e o seu toque suave nos meus cabelos me mostrou toda a mentira deste meu viver . Foi como se a minha alma se abrisse ao mundo e o meu corpo despertasse de um sono ancestral. Se é a isto que chamam felicidade, fui feliz! !

Todavia, é tão imensamente enorme esta alegria de saber-me correspondida neste amor que subitamente desflorou o meu coração, quão amarga a certeza de que não devemos sequer ousar sonhar com esta felicidade construída sobre os escombros do mundo onde vivo cega para o Amor.


Fala-me de fuga, meu querido, e todo o meu ser se inflama desejoso por ela.


Mas haverá fuga possível para a culpa que inevitavelmente, mais cedo ou mais tarde, me flagerá por ter desobedecido a meu marido, a meu pai, a Deus ?

Será o nosso Amor suficientemente forte para sobreviver do lado de lá da moral onde, abandonados por todos, tudo nos será agreste ?


Quero-lhe demais para o condenar a tal penitência.


Esqueça-me José Eduardo !

A vida se encarregará de lhe colocar no caminho quem em liberdade o amará, não tanto quanto eu, mas com um Amor sereno e desprovido do cruel espinho do remorso

Esqueça-me!


Abatem-se sobre a minha vida as cores deste Outono que começa colorindo de amargura os meus 18 anos que graças a si conheceram o calor genuíno do Verão .


Meu marido, embora com alguma relutância, autorizou que me quede na Quinta este Inverno. Fica assim anulada qualquer hipótese de nos cruzarmos em Lisboa
Será mais fácil o esquecimento!

Sinto que em breve serei mãe cumprindo o destino que outros escreveram na alvura da minha alma agora manchada e trémula de desejo por si, meu querido e único Amor

Aceitarei conformada a cadência dos dias!

Creia-se, meu adorado José Eduardo, para sempre guardado no mais belo recanto da minha memória mas, não sei se por prudência ou covardia, suplico-lhe pelo que tem de mais sagrado que me esqueça.


Alice da Assunção

2 comentários:

  1. A Alice da Assunção já teve azar com o nome, mas ainda por cima morar em 1895, em Painzela, é mesmo uma fatalidade. E afinal de quem é o filho? Era uma rebaldaria, é o que era. Teve «muita graça» esta carta, muito «amor de perdição», «muita desgraça». Parece uma contradição, mas não é....
    Pois, o José Eduardo pode esquecer a Alice, a Alice pode esquecer o José Eduardo, mas não podemos esquecer, de jeito nenhum, esta Godiva (lembra-me chocolate) que escreve assim. Parabéns. mj

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  2. Sendo uma carta de 1895, tinha que ter muito de "Amor de Perdição".
    Não acredito que o José Eduardo vá desistir deste amor, nem que o leve à cadeia com vistas para o Douro.
    Uma carta "camiliana" em grande estilo.

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