Painzela, 14 de Setembro de 1895
Caro
José Eduardo,
Quando
hoje pela manhã me trouxeram o correio e vislumbrei por entre os subscritos um
que pela letra adivinhei ser seu, o meu coração disparou numa tal correria que
por instantes temi não o conseguir acompanhar
Que
grande alegria, meu querido José Eduardo, confirmar nas suas palavras aquilo
que os nossos olhares há muito nos vinham timidamente dizendo
Sei que
peco ao sorver cada uma das suas palavras com a avidez de quem finalmente
percebe existir um oásis para além do deserto, mas como evitar este tumulto que
abalou todas as minhas certezas
Confesso-lhe
que trago a memória possuída por aquele Pôr-do-Sol em que o Universo
conspirando a nosso favor nos deixou sós à beira-mar e o seu toque suave nos
meus cabelos me mostrou toda a mentira deste meu viver . Foi como se a minha
alma se abrisse ao mundo e o meu corpo despertasse de um sono ancestral. Se é a
isto que chamam felicidade, fui feliz! !Todavia, é tão imensamente enorme esta alegria de saber-me correspondida neste amor que subitamente desflorou o meu coração, quão amarga a certeza de que não devemos sequer ousar sonhar com esta felicidade construída sobre os escombros do mundo onde vivo cega para o Amor.
Fala-me de fuga, meu querido, e todo o meu ser se inflama desejoso por ela.
Mas
haverá fuga possível para a culpa que inevitavelmente, mais cedo ou mais tarde,
me flagerá por ter desobedecido a meu marido, a meu pai, a Deus ?
Será o nosso Amor suficientemente forte para sobreviver do lado de lá da moral onde, abandonados por todos, tudo nos será agreste ?
Quero-lhe
demais para o condenar a tal penitência.
Esqueça-me
José Eduardo !
A vida
se encarregará de lhe colocar no caminho quem em liberdade o amará, não tanto
quanto eu, mas com um Amor sereno e desprovido do cruel espinho do remorso
Esqueça-me!
Abatem-se
sobre a minha vida as cores deste Outono que começa colorindo de amargura os
meus 18 anos que graças a si conheceram o calor genuíno do Verão .
Meu
marido, embora com alguma relutância, autorizou que me quede na Quinta este
Inverno. Fica assim anulada qualquer hipótese de nos cruzarmos em Lisboa
Será
mais fácil o esquecimento!
Sinto
que em breve serei mãe cumprindo o destino que outros escreveram na alvura da
minha alma agora manchada e trémula de desejo por si, meu querido e único Amor
Aceitarei
conformada a cadência dos dias!
Creia-se,
meu adorado José Eduardo, para sempre guardado no mais belo recanto da minha
memória mas, não sei se por prudência ou covardia, suplico-lhe pelo que tem de
mais sagrado que me esqueça.
Alice da
Assunção
A Alice da Assunção já teve azar com o nome, mas ainda por cima morar em 1895, em Painzela, é mesmo uma fatalidade. E afinal de quem é o filho? Era uma rebaldaria, é o que era. Teve «muita graça» esta carta, muito «amor de perdição», «muita desgraça». Parece uma contradição, mas não é....
ResponderEliminarPois, o José Eduardo pode esquecer a Alice, a Alice pode esquecer o José Eduardo, mas não podemos esquecer, de jeito nenhum, esta Godiva (lembra-me chocolate) que escreve assim. Parabéns. mj
Sendo uma carta de 1895, tinha que ter muito de "Amor de Perdição".
ResponderEliminarNão acredito que o José Eduardo vá desistir deste amor, nem que o leve à cadeia com vistas para o Douro.
Uma carta "camiliana" em grande estilo.