
Por Francisco Moleiro
Era um daqueles fins de tarde de Outubro em que parece que o Verão não se quer ir embora, que nos saúda como velhos amigos. João, toda a vida conhecido como "o veneno",caminhava lentamente de volta a casa, depois de um dia de pesca.
Tinha
saído de casa pelas seis da manhã, nada de especial para um septuagenário em forma,
como ele. A mulher só queria que não a acordasse, quando saía para aquelas
pescarias.
Quarenta
e nove anos juntos e apenas se chateava com ele por causa do vício da pescaria.
Também,
era a única coisa com que se chateavam... Tinha ganho a sua alcunha por ser
muito calado
e, nas raras vezes em que falava, ser muito sarcástico e incisivo. Por isso
sempre se entendera
tão bem com a Fernanda. Ela nunca se calava, mas não tinha um pingo de maldade no
corpo.
Enquanto
avançava, reparou que as folhas já se desprendiam calmamente dos plátanos que
ladeavam o caminho até ao Bairro da Paz, onde morava.
A
Fernanda costumava sempre assar o peixe. Ele preferia grelhado, mas que fazer?
Olhou
para o céu e viu aquele padrão tão familiar da migração de tantas aves em busca de
paragens mais a Sul...
Dois
filhos criados e uma mão cheia de netos, já a contar com o mais novo ainda a um mês de
nascer. Trabalhámos bem, nós...
A descer
a encosta até ao caminho da quinta da Palma, seguia o ribeiro, enfraquecido pelo
calor do Verão, mas mais forte do que há três anos, quando quase secara.
Os
miúdos já estão criados, saíram-se bem. Criámo-los como deve ser, não haja dúvidas.
Riu-se
para si próprio a lembrar-se das caras deles agarrados às saias da Fernanda
quando se chateava
e saía do seu mutismo.
No
último trecho de estrada até casa, reparou num campo com flores silvestres,
metade amarelas
e metade roxas.
Entrou
em casa pela porta do quintal depois de pousar a cana e as botas. Sentou-se a observar
a cadeira onde, até há três semanas, estava sentada a Fernanda, antes do
enfarte, antes de
tudo.
Olhou
para a janela a ver as nuvens laranja-avermelhadas amontoadas para lá do mar.Não, pescar já não lhe dava o mesmo prazer. Os filhos já não precisavam dele. Saíram-se bem, convenceu-se outra vez.
Um melro lançou um trinado saudoso lá fora, como se pedisse perdão por ir dormir.
Hão-de
perceber...
Já percebi que captas muito bem os momentos banais do quotidiano e os tornas importantes, como se eles guiassem o pensamento da personagem e determinassem as decisões que tomam. Gosto disso.
ResponderEliminarMas, como «caloiro» (apenas no grupo, não na escrita) vais ter de escrever mais para nós podermos avaliar como deve ser. ;) ;)
Porque letra tens tu! Olá se tens!
Um abraço, bem vindo e, claro, parabéns! mj