quarta-feira, 16 de maio de 2012

3 - UMA VIDA DE CRISTAL

                                                                                                              por Célio Passos

As prendas não paravam de chegar aquela bela mansão. A filha do senhor engenheiro e também político destacado do partido no poder, ia-se casar. Numa dessas prendas vinha “eu”. Era uma prenda que incluía várias caixas; consistia de um serviço de copos de cristal Baccarat. Só por si, o nome infundia respeito. A nubente começou a desembrulhar o presente e talvez devido à excitação, a caixa onde “eu” vinha, juntamente com onze irmãos, caiu ao chão com estrondo e apesar de bem acondicionados todos os copos se partiram, exceto um...”eu”. Consternação, lamentos, o apanhar dos vidros e “eu”, desgraçado destino, fui emprateleirado.

 Apesar de tudo, assisti, com enorme satisfação, o pai dizer à filha que ia arranjar doze copos exatamente iguais aqueles e que “eu” ficaria como sobressalente. Fiquei triste, mal tinha começado a viver já me estavam a pôr de lado. Então, quando houvesse festas, eu ficaria vazio, sem pinga de qualquer líquido, seco como um deserto, a ver os meus novos irmãos a encherem a barriga dos melhores néctares, satisfazendo bocas sequiosas. Teria que aguardar, ansiosamente, que algum deles se partisse, para “eu” vir para a luz da ribalta?!  Quando fui fabricado era para ser visto, apreciado, desejado, acariciado, gabado da beleza das minhas gravações, não para ficar a ver os outros a usufruir dos prazeres de uma boa mesa, não era justo!

Depois de cada utilização, aqueles usurpadores dos meus irmãos, vinham para a prateleira do meu descontentamento, tilintando. Falavam da festa, do quanto tinham sido enaltecidos, da beleza do seu design, da qualidade do  gravado do cristal e dos líquidos que passaram pelos seus corpos, enquanto “eu”, resfolegava.

Um dia o serviço foi para leilão. Quando analisavam os treze copos, repararam que um dos copos a cor era ligeiramente diferente e por isso destoava do conjunto, claro, tinha que ser “eu”. “Eu” tinha que ser retirado, não podia pertencer ao lote. Encostaram-me lá para um canto, junto a outra vidraria sem  renome. Ouvi falar em “vidrão”, entrei em pânico. Ia ser este o meu fim?!... reciclado. Eu que era fruto das mãos dos melhores obreiros, de uma estirpe francesa reconhecida como uma das melhores marcas mundiais, acabar por ser transformado, sei lá!... num frasco para compotas, incrível. Amontoaram-nos num caixote e quando o empregado se dirigia para o vidrão ao passar junto a um terreno baldio, caí do caixote, feliz acaso, ficando coberto de folhagem. Fiquei delirante. Ia vingar-me; é que um vidro jogado na natureza leva 4 mil anos para desaparecer.
 

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