segunda-feira, 14 de maio de 2012

2 - O ALOQUETE


                                                                                           Por Helena João



Dia após dia, continuamente, a mesma cadência rotineira. O despertador, infame ditador, toca às sete, obrigando José de Ninguém a saltar da cama atabalhoadamente para o desligar. De seguida, corre o cortinado em tons de amarelo-torrado que Margarida insistiu em colocar, para “dar um sentido de privacidade” à área do quarto. Como se pudesse existir privacidade num T0. Por mais que, pomposamente, lhe tenham atribuído o título de duplex. Desce os degraus que o separam da área da sala e cozinha e dirige-se para a casa de banho. Enquanto toma a “chuveirada” matinal, com propósitos higiénicos e revitalizantes, passa o filme do dia na cabeça: das oito às dezassete é apenas mais um hamster na roda dos ratos. Ao bom estilo de Charlie Chaplin em Os Tempos Modernos, verifica cadeados, numa linha de montagem fabril. Abre e fecha-os. Fecha-os e torna a abrir. Só isto. Só com cadeados. Ou aloquetes, como se diz na sua terra.


Mas hoje não. Hoje já são nove da manhã e o despertador de José de Ninguém ainda não tocou. Está na cama, deitado, acordado e com os olhos postos no cortinado amarelo-torrado, pensando porque teria ela preferido ficar com o outro. O outro que não abre e fecha aloquetes, Manuel Alguém, advogado. Dissera-lho há dois ou três dias, numa curta visita ao seu T0. Olha, José… Apaixonei-me, que queres? Queria tudo. Queria que nada daquilo tivesse acontecido, queria que ela fosse a mesma Margarida que pendura cortinados amarelos, queria que os cadeados que abre e fecha não trancassem os sonhos que tinha para ambos. Queria a promoção de passagem a supervisor, para ficar a ver outros abrir e fechar cadeados e poder pagar antes um T1. Ou um T2. Com terraço. Queria o cão e as crianças.


Quando deram com ele, dez dias depois e por aviso de uma vizinha que, não suportando mais o cheiro, chamara a polícia, continuava deitado na cama. O resultado da autópsia foi conclusivo: intoxicação por monóxido de carbono. Realmente já não vinham há muito tempo, os da manutenção do esquentador, comentou a mesma vizinha, com uma outra. Pessoa alguma conseguira explicar o que lhe fora encontrado na mão fechada. Aquela caixa pequena, fechada com um aloquete, contendo dentro um anel de imitação de diamante, permaneceria para sempre um mistério. Nunca Ninguém chegou a falar com a Margarida.

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