Por Helena João
Dia após dia, continuamente, a mesma cadência
rotineira. O despertador, infame ditador, toca às sete, obrigando José de
Ninguém a saltar da cama atabalhoadamente para o desligar. De seguida, corre o
cortinado em tons de amarelo-torrado que Margarida insistiu em colocar, para
“dar um sentido de privacidade” à área do quarto. Como se pudesse existir
privacidade num T0. Por mais que, pomposamente, lhe tenham atribuído o título
de duplex. Desce os degraus que o
separam da área da sala e cozinha e dirige-se para a casa de banho. Enquanto
toma a “chuveirada” matinal, com propósitos higiénicos e revitalizantes, passa
o filme do dia na cabeça: das oito às dezassete é apenas mais um hamster na
roda dos ratos. Ao bom estilo de Charlie Chaplin em Os Tempos Modernos, verifica cadeados, numa linha de montagem
fabril. Abre e fecha-os. Fecha-os e torna a abrir. Só isto. Só com cadeados. Ou
aloquetes, como se diz na sua terra.
Mas hoje
não. Hoje já são nove da manhã e o despertador de José de Ninguém ainda não
tocou. Está na cama, deitado, acordado e com os olhos postos no cortinado
amarelo-torrado, pensando porque teria ela preferido ficar com o outro. O outro
que não abre e fecha aloquetes, Manuel Alguém, advogado. Dissera-lho há dois ou
três dias, numa curta visita ao seu T0. Olha,
José… Apaixonei-me, que queres? Queria tudo. Queria que nada daquilo
tivesse acontecido, queria que ela fosse a mesma Margarida que pendura
cortinados amarelos, queria que os cadeados que abre e fecha não trancassem os
sonhos que tinha para ambos. Queria a promoção de passagem a supervisor, para
ficar a ver outros abrir e fechar cadeados e poder pagar antes um T1. Ou um T2.
Com terraço. Queria o cão e as crianças.
Quando
deram com ele, dez dias depois e por aviso de uma vizinha que, não suportando
mais o cheiro, chamara a polícia, continuava deitado na cama. O resultado da
autópsia foi conclusivo: intoxicação por monóxido de carbono. Realmente já não
vinham há muito tempo, os da manutenção do esquentador, comentou a mesma
vizinha, com uma outra. Pessoa alguma conseguira explicar o que lhe fora
encontrado na mão fechada. Aquela caixa pequena, fechada com um aloquete,
contendo dentro um anel de imitação de diamante, permaneceria para sempre um
mistério. Nunca Ninguém chegou a falar com a Margarida.
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