por Célio Passos
1º
Capítulo – As desconfianças de Rosa.
Quando dona
Rosa abriu a janela do seu quarto, viu a atravessar a rua a sua
vizinha de frente dona Emilinha.
- Ainda não
são nove horas e já esta à janela? – perguntou curiosa dona
Emilinha.
- O meu
Nando teve que sair mais cedo e eu aproveitei para me levantar,
porque tenho uns trabalhos de costura para terminar - justificou dona
Rosa.
Tanto dona
Rosa como o senhor Fernando já estavam reformados. Ele tinha sido
condutor de uma empresa internacional e ela costureira numa fábrica.
Dona Emilinha, que já tinha ultrapassado os oitenta anos há muito
tempo, mas nunca se descosia com a sua idade. Foi sempre doméstica,
casou três vezes e de cada casamento a sua situação ia melhorando.
O seu último marido era um empresário de calçado e, quando faleceu
de um ataque cardíaco, a fábrica estava no auge da sua produção.
O encarregado era de confiança, Emilinha cedeu-lhe uma quota e
nomeou-o gerente, e a velhota passou a viver do somatória dos
rendimentos dos seus falecidos maridos.
Como a sua
vida era vazia, preenchi-a com a vida alheia dos outros.
- O seu
marido anda a sair muito cedo e o por vezes até à noite? – tentou
confirmar o que seus olhos, por detrás das cortinas da sua janela ia
se apercebendo.
- Não diga
nada vizinha! Ando mesmo amofinada. Andam p´ra aí a dizer que o meu
Nando anda enrabichado por uma moça do supermercado do Xico. Eu nem
a conheço nem a quero conhecer. Mas p´ra mim isso é tudo mentira,
o meu Nando não me fazia uma coisas dessas - disse Rosa um pouco
exaltada.
- Eu também
já ouvi falar disso! Mas a Rosa não ligue que é tudo mentira. É
de raiva que elas falam. O seu Nando, apesar da idade é um pedaço
de homem – disse dona Emilinha criando o clima propício para mais
uma coscuvilhice.
- Não sei
se será! Ele está a chegar a casa, quase sempre, entre as quatro e
as cinco da manhã. Diz que vem de jogar cartas da casa de um amigo,
que nem sei quem é - dona Rosa ia desabafando, dando argumentos para
que dona Emilinha montasse um cenário de coscuvilhice que se
aproximasse de uma de uma situação autêntica.
- Olhe
vizinha, “ grandes males , grandes remédios”, diz o povo. Já
ouviu falar do vidente Atomaim
- Não –
disse Rosa
- É um
vidente, que faz maravilhas nestes assuntos de amor. Eu até tenho
aqui um papelucho com a morada e o que ele faz. Ora veja!
Dona
Emilinha tira um papel do bolso, abre-o e entrega à Rosa.
“ PROF.
ATOMAIM
“Especialista
com mais de 40 anos de experiência, conhecido em toda a África e
Europa, com poderes para ajudar a resolver problemas como: sorte na
vida, emagrecimento, saúde, justiça, inveja, mau-olhado, vícios da
droga, negócios, impotência sexual, amarração , amor, etc.”
Seguia-se a
morada e o número do telefone e a hora de expediente.
- Eu quero
lá saber disso. Isso é tudo uma treta. Era o que faltava a
consultar bruxos - desabafou Rosa.
-Não é
Bruxo. É um vidente com muita clientela. Eu sei de casos resolvidos
numa semana – acrescentou dona Emilinha. Se fosse um bruxo nem lhe
dizia nada. A propósito a vizinha já alugou o quartinho que tem nas
traseiras?
- Não.
Ninguém lhe pega, dizem que é muito caro. Veja lá duzentos e
cinquenta euros, cama, roupa lavada, água corrente, quente e fria e
serventia de cozinha. Também não me preocupo, com as reformas minha
e do Nando, não temos preocupações – justificou Rosa
-
Nunca se sabe o dia de amanhã! As coisas podem mudar! - Emilinha ia
envenenando .
- Por favor
dona Emilinha não venha levantar falsos testemunhos sobre o meu
Nando – disse Rosa já irritada.
- Eu! Credo
( benzeu-se três vezes), se a minha boca se abre para essas coisas.
Cada um trate de si. Ainda bem que o meu Venâncio já foi andando,
assim não tenho que me consumir com essas coisas – disse Emilinha
com ar contristado.
- Mas pelo
sim e pelo não, dê-me o nome do bruxo, ou vidente, como você diz.
Só que não tenho onde apontar.
- Aponte
nesse papel vegetal que tem ai, das suas costuras, com esse lápis
vermelho. Carregue bem que é para não se perder nada – insistiu
dona Emilinha vendo que o seu plano ia resultar. A casa é fácil de
encontrar, fica na Rua do Cerco 10; é aquela rua estreitinha que vai
dar ao cemitério. Tenho que me ir embora porque tenho muito que
fazer, até logo Rosa.
Dona
Emilinha lá foi ladeira abaixo, gozando com o desespero incontido da
sua vizinha, enquanto Rosa ficou a cismar:
“Será
mesmo verdade que o meu Nando anda metido com aquela serigaita do
supermercado. Ele já desmentiu tudo, jurou por tudo o mais sagrado
que tinha que era mentira.
Mas a
desconfiança aumentava e o coração já lhe começava a doer.
A ideia de
ir ao vidente começou a tomar forma na sua conturbada cabeça. Tinha
a direcção e numa das ausências de casa do Nando ia à consulta do
tal professor. Lembrou-se que estes “indivíduos” pedem sempre
uma peça de roupa e ela lembrou-se que tinha mas cuecas do Nando, e
meteu-as num saco plástico. E no dia seguinte aproveitando, até
parecia de propósito, o facto do Nando não vir almoçar, deitou pés
ao caminho. Por sinal a morada não era longe.
(continua)
2º
Capítulo - O desencontro de moradas.
Bateu à
porta. Apareceu uma Jovem, muito bem arranjada, com uma farda azul
claro.
- Dona Rosa
desdobra o papel e pergunta:
- É aqui a
“ MIA MOTA”?
- Claro. Faz
o favor de entrar – disse a empregada muito solícita.
Rosa ficou
espantada com o que viu. Não esperava encontrar toda aquela
aparelhagem, alguma já sua conhecida. Com certeza que se tinha
enganado, ou a dona Emilinha deu-lhe a direção errada, capaz disso
era ela.
- Sabe...-
dirigindo-se à empregada - tenho a impressão que não este local
que me indicaram...
- Claro que
é! – disse a dona do estabelecimento que entretanto apareceu. Sei
perfeitamente ao que vem. Nós as mulheres sabemos como são as
coisas, e cada dia é pior. Quando sair daqui não se vai reconhecer.
- Mas aqui é
a casa daquele senhor...que faz...aquelas coisa...não sei bem como
explicar...
- Com
certeza é aqui mesmo, e estamos aqui para a servir. O patrão hoje
não está, mas pode ter a certeza que vai gostar do nosso serviço,
somos muito competentes.
Rosa não
resistiu. Sentaram-na numa cadeira, arranjaram-lhe o cabelo, trataram
da pele da cara, pintaram- lhe os olhos, arranjaram-lhe as unhas,
seguiram-se outros tratamentos...quando Rosa se olhou ao espelho não
se reconhecia. Estranhamente , ficou entusiasmada e o Nando vai
gostar, andava sempre a dizer que não me arranjava. Mas não era
propriamente isto que tinha vindo à procura, até tinha trazido as
cuecas do Nando, que para ali nem foram chamadas.
Pagou a
conta e saiu, pior do que entrou. Além do mais a conta foi uma “nota
preta”.
Quando ia no
caminho de regresso, Rosa pensava: “Então para que eu trouxe as
cuecas. Afinal aquilo não era a casa de um bruxo ou vidente, aquilo
parecia mais uma cabeleireira: queres ver que me enganei? Mas não
está aqui bem escrito “MIA MOTA”.
Quando
entrou em casa, já lá estava o Nando que quando a viu, deu um salto
de espanto.
- Sim
senhor! Até que enfim te decidiste arranjar, parecias uma velha dos
contos infantis. Agora sim pareces uma senhora. Estou a gostar. Assim
até pareces a esposa do Fernando Morgado.
Apesar de
todos os elogios Rosa estava irritada. Não era isto que a Emilinha
lhe tinha dito. Será que a velha anda a gozar comigo. Isto não fica
assim a Emilinha vai ter que me explicar tudo “timtim por timtim”.
- Rosa, hoje
não venho jantar – disse Fernando
-O quê? –
perguntou Rosa
-É que
tenho um encontro com uns amigos da tropa, já não nos vemos há
muitos anos, e tu sabes as amizades da tropa são eternas. Vamos
fazer um jantar que deve acabar tarde, por isso não esperes por mim
– deu o recado e saiu.
“ O safado
vai estar com a serigaita!” – pensou de imediato Rosa.
A noite
terminou entre lamentos e choros, mas Rosa estava bonita como nunca
esteve, mas para quê tanta “ produção” para dar em nada.
(continua)
3º
Capítulo – Engano desastroso.
Emilinha por
detrás das cortinas vigiava a casa de Rosa, atenta ao abrir das
persianas da vizinha. Mal isso aconteceu, colocou o xaile sobre os
ombros e saiu de casa.
Bateu à
janela da Rosa. Esta abriu um pouco espantada, porque não era normal
baterem-lhe nas vidraças.
- Dona
Emilinha podia bater à porta.- disse Rosa
- Não
queria incomodar, podia o senhor Fernando estar a dormir. –
justificou Emilinha. Então e a consulta, gostou?
- Qual
consulta! A dona Emilinha anda a mofar comigo. Aquilo era um
cabeleireiro – disse zangada Rosa.
- Já vi que
está muito jeitosa. Mas tocou no número 10 – 2º andar? –
perguntou Emilinha.
- Eu toquei
no número 10 mas no rés do chão - explicou Rosa
- Mas aí é
o salão de beleza da Mia Mota – disse Emilinha, rindo
interiormente do engano da vizinha.
- Mas é o
que estava no papel. Ora veja? – entregou o papel à Emilinha.
- Ó dona
Rosa, a senhora leu o papel ao contrário. Como o papel era vegetal,
você leu pelas traseiras do papel e claro em vez de ler ATOMAIM leu
MIAMOTA, que é a palavra escrita da direita para a esquerda. É
preciso ter azar. Mas deixe lá que eu vou lá consigo –
disponibilizou-se Emilinha.
- Nem pense.
Nunca mais vou para esses lados. Esta ficou-me de escarmenta. E o que
é que o bruxo ou vidente ia dizer: “ que era tudo mentira, que o
meu Nando era fiel, e que não existia Sónia nenhuma no nosso
caminho”- clarificou Rosa
- Se não
existe nenhuma serigaita, como sabe que ela se chama Sónia ? –
perguntou com ar velhaco dona Emilinha.
- Eu disse
Sónia? – se disse já nem me lembro - disse Rosa um pouco
atrapalhada.
Dona
Emilinha interiormente ria-se das aflições, cada vez mais evidentes
da vizinha. O caso estava-lhe a dar-lhe um gozo. Era uma autêntica
telenovela, para melhor.
- Mas tenho
uma boa notícia para lhe dar, aluguei o quartinho a uma moça –
disse Rosa.
- Já ouvi
dizer. E dizem que é muito boa moça e trabalhadeira – acrescentou
Emilinha.
“Como é
que ela sabe estas coisas todas, o raio da velha”- pensou Rosa.
- Hoje já
fica cá a dormir. Chama-se Sofia, e é muito simpática. Um amor de
rapariga. Acho que nos vamos entender muito bem. O Fernando também
gostou dela. – disse muito satisfeita Rosa .
- Ó dona
Rosa por um bocadinho que era Sónia, como a outra!- disse Emilinha
espicaçando a vizinha,
- Não tem
nada a ver. Uma coisa é Sónia outra é Sofia.
-
Se o senhor Fernando gostou já é meio caminho andado! – disse
Emilinha
- Meio
caminho andado p´ra quê ? - perguntou curiosa Rosa.
- Para se
darem todos bem !– explicou ironicamente a velhota.
- D.Emilinha
tenho muito que fazer, não posso estar aqui a dar à língua. Não
tarda que chega aí o Nando e eu tenho que lhe dar de comer. Falamos
mais tarde, tá bem dona Emilinha – despachou Rosa
- O tempo
também escambou e vou aproveitar para ir ao supermercado do Xico
fazer umas compritas. Até logo Rosa.
A velhota
mais uma vez lá foi calçada abaixo a engendrar mais uma cena para a
sua novela cor de Rosa.
(continua)
4º
Capítulo – A esquisita doença de Fernando.
Os tempos
iam correndo, numa paz podre, porque Rosa , pelas atitudes do marido,
já não tinha dúvidas que algo se passava e a velhaca da dona
Emilinha sabia mais do que contava. Esperava mais dela, a viver há
tantos anos frente, até assistiu á morte dos três maridos.
“A velha
gostava de se meter na vida alheia, isso toda a gente do bairro
sabia, mas porque quer arranjar problemas com o seu Nando.” -
pensou Rosa
- Então
vizinha, a sua hóspede tem-se portado bem? – perguntou dona
Emilinha quando chegou à porta da casa de Rosa que limpava o
passeio.
- É muito
simpática e quando chega a casa ajuda-me muito – disse Rosa com
ar satisfeito. - O Nando até disse que devíamos baixar a renda.
- Se o
senhor Fernando acha... lá deve ter as suas razões - alvitrou dona
Emilinha.
- Lá vem
você com essas “bocas foleiras” – respondeu Rosa.
- Não se
pode dizer nada que você fica logo toda amofinada, cruzes Rosa, uma
pessoa nem pode ser sincera – acrescentou a velhota.
- Sabe o que
me está a preocupar é o Nando! – disse Rosa com ar que notava
preocupação.
- Mas o que
se passa? – a velhota ficou logo com todos os cinco sentidos em
alerta.
- O Nando
agora todas as noites, entre as quatro e cinco da manhã vai para o
quarto de banho e está para lá quase uma hora e depois vem muito
chateado. Eu até outro dia lhe perguntei: - Ó Nando o que é que
se passa contigo?
- Não ando bem. Tenho dificuldades em urinar.
Estou no quarto de banho um tempo infinito para fazer umas pinguitas,
isto deve ser próstata. Tenho que ir ao médico .
- Olhe
dona Rosa, eu conheço um vidente o Prof Zarangha,não é o mesmo,
é outro que para essas coisas dos “baixos” é um espetáculo.
É cura certa. – disse dona Emilinha muito prazenteira.
- Não
venha você outra vez com videntes, desta vez vai ao médico da
bexiga. Até já marquei consulta no centro de saúde. - disse
categoricamente Rosa.
- Isso não
serve para nada. Enchem-no de remédios que faz bem a bexiga e
estraga outra coisa qualquer, se calhar mais importante - disse
Emilinha com ar galhofeiro.
- Seja como
for. Desta vez vai ao doutor. Nada de bruxarias. Já chegou.
- O tal
videnteque lhe falei, tens umas ervas, que ele manda vir de fora,
que é uma maravilha. Então para casos de bexiga, se é o caso,
aquilo é um correr para a casa de banho, é uma torneira aberta,
que nem lhe digo – esclareceu Emilinha, rindo-se. Mas a Rosa é
que sabe! Vou fazer umas compritas ao supermercado do Xico. É
verdade, outro dia vi lá o seu marido! O meu
Nando é amigo do Xico, o que é que isso tem a ver? - oerguntou
Rosa.
- Curiosidades... curiosidades - e Emilinha desandou .
( continua)
5º
Capítulo – Identidade descoberta.
Sempre
atenta ao que se passava, Emilinha por detrás dos cortinados de
casa, tentava saber quem era a tal Sofia, porque nunca a tinha visto,
e a curiosidade era enorme. Mas Sofia devia sair pelas traseiras da
casa porque por aquela porta nunca saiu.
Colocou o
xaile e saiu. Bateu à porta da casa de Rosa. Quem veio atender foi o
marido.
- Bom dia
senhor Fernando, não tenho visto a Rosa, passa-se alguma coisa com
ela? - perguntou interessada Emilinha.
- Não. Anda
um pouco mal disposta, com umas dores nas costas por causa da
costura, mas daqui a uns dias já deve estar boa. Muito obrigado pela
sua atenção dona Emilinha. E zás ...fecha-lhe a porta na cara.
Dona
Emilinha sentiu-se muito ofendida, ficou vermelha como um tomate só
de tanta raiva.
“ Isto não
fica assim, vais ver Fernando o que te vai acontecer, não sabes com
quem te meteste”- prometeu Emilinha.
Emilinha lá
foi ladeira abaixo, a ruminar os desafores do senhor Fernando. Foi ao
supermercado do Xico e mesmo sem dizer bom dia, disparou:
- Senhor
Xico como se chama a sua empregada?
- A dona
Emilinha sabe que ela se chama Sónia - respondeu o dono do
supermercado.
- É o seu
nome completo?
- Não. O
nome completo é Sónia Sofia Santos Sá– respondeu o senhor Xico.
- Bem me
parecia que havia marosca na história - disse Emilinha.
- A que se
está a referir? - disse o senhor Xico.
- Quem disse
à sua empregada que a dona Rosa tinha um quarto para alugar? -
perguntou Emilinha.
- Fui eu,
soube pelo senhor Fernando. - respondeu o senhor Xico.Obrigado
– estou inteirada, aliás inteiradissima, disse Emilinha.
“ Vou
falar com o vidente o Prof. Maxumgua para fazer um trabalhinho
daqueles em que ele é especilista...isto vai dar uma confusão
Emilinha,...que vais ter para contar. ” - pensou Emilinha
(continua)
6º
Capítulo – Desfecho fatal.
Estava Emilinha a controlar os movimentos da casa em
frente por entre os cortinados, quando para seu espanto vê junto à
casa de Rosa um táxi parado, com o porta bagagens aberto e a Rosa a
meter uns embrulhos para dentro da mala com ajuda do taxista.
Fernando estava encostado a um umbral da porta com a cabeça baixa e
sempre que Rosa saía de casa ele tentava falar com ela, mas sem
resultado. Era evidente que estavam zangados.
Emilinha colocou o xaile pelas costas e saí de casa.
- Mas o que é que se passa dona Rosa? - pergunta
Emilinha.
- Pergunte a este traste? O traste era o Fernando.
- Mas senhor Fernando o que se passou? - perguntou muito
interessada Emilinha.
- Dona Emilinha peça à Rosa que não se vá embora! Eu
não posso ficar sozinho – disse Fernando quase suplicando.
- E qual a razão para a Rosa se ir embora ?–
perguntou Emilinha.
- A Rosa desconfia que eu ando metido com a Sofia.
Viu-me a sair do quarto dela na última noite, mas não foi nada. É
que ouvi um barulho e fui só espreitar. A Rosa não acredita.
Entretanto Rosa vinha de dentro de casa com mais uma
mala.
- Ó Rosa você não pode ser tão desconfiada. Então o
senhor Fernando só foi saber qual era o motivo do barulho.
- Ó dona Emilinha, não venha com coisas. Para ver o
motivo do barulho era preciso estar lá quase uma hora. Devia ser uma
grande barulheira, isso digo eu! - disse Rosa desatinada.
- Mas a Rosa para onde vai? Eu conheço um vidente que
nestas coisas de zangas de marido-mulher é uma sapiência. Trata
tudo numa semana. Eu tenho experiência. Aconteceu com o meu
Venâncio. Tivemos um problema fomos falar com ele e estava tudo a
correr tão bem não fosse o caso do Venâncio ter o ataque
cardíaco. Pense no que vai fazer? - dona Emilinha tentou conciliar.
- Olhe D.Rosa vou para Lisboa para casa da minha irmã
Jacinta que está a fabricar pastéis de nata e a exportar para o
estrangeiro e têm ganho bom dinheiro. Como não tem mãos a medir já
me tinha pedido que a fosse ajudar. Isto vem a propósito. O Nando
que fique com a Sónia, com a Sofia, com o raio que o parta e a D.
Emilinha vai-lhe arranjando videntes ou bruxos porque ele vai
precisar.
Fernando estava inconsolável. Agarrava-se a Rosa,
puxava para D. Emilinha para dentro de casa para convencer Rosa. O taxista já tinha sido mandado embora por duas vezes pelo Fernando.
Mas Rosa mal o homem se metia no carro, perguntava-lhe onde é que
ele ia. E o homem saí do carro e ficava encostado à porta a ver no
que aquilo dava. A vizinhança perante o alarido ia-se aproximando e
comentando. Fernando refugiou-se em casa. Emilinha prostrou-se à
porta.
“ Se
a Rosa vai embora lá vão os meus negócios com os videntes. Eu que
até tinha encomendado um trabalhinho ao Prof. Maxungua que ia por a Sónia /Sofia fora de casa num instante, e agora...pumba...lá se foi o
trabalho” - pensou Emilinha.
Rosa saiu de casa com mais um embrulho, meteu-se no
táxi, apesar da resistência de Fernando que se colocou à frente do
tàxi, mas desistiu, perante duas aceleradelas do taxista.
Fernando encostado à casa era um homem desalentado,
comprometido, comentado,angustiado e sem rumo.
- Deixe lá senhor Fernando, você perdeu a Rosa, mas
arranjou logo duas lindas moças – A Sónia e a Sofia, o que é que
você quer mais! Se precisar de algum conselho dos meus videntes é
só dizer que estou sempre disponível. Ó homem, a vida são dois
dias, e quanto menos se espera uma pessoa já está de “pés para a
frente”, olhe o que aconteceu com o meu Venâncio foi um ar que se
lhe deu. Mas se quiser que a Rosa volte eu conheço um vidente, não
é nenhum daqueles com quem eu trabalho, é um espanhol , mas fala muito
bem o português, por isso é só dizer-me.
Fernando já não a ouviu, bateu com violência a porta
de sua casa.
“ Homem
atrevido dura como vaso de vidro”
E lá foi dona Emilinha pela calçada abaixo a meditar
neste proverbio popular.
Fim

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