quarta-feira, 14 de março de 2012

1 - O VIDENTE



                                                                                                                       por Célio Passos
1º Capítulo – As desconfianças de Rosa.
Quando dona Rosa abriu a janela do seu quarto, viu a atravessar a rua a sua vizinha de frente dona Emilinha.
- Ainda não são nove horas e já esta à janela? – perguntou curiosa dona Emilinha.
- O meu Nando teve que sair mais cedo e eu aproveitei para me levantar, porque tenho uns trabalhos de costura para terminar - justificou dona Rosa.
Tanto dona Rosa como o senhor Fernando já estavam reformados. Ele tinha sido condutor de uma empresa internacional e ela costureira numa fábrica. Dona Emilinha, que já tinha ultrapassado os oitenta anos há muito tempo, mas nunca se descosia com a sua idade. Foi sempre doméstica, casou três vezes e de cada casamento a sua situação ia melhorando. O seu último marido era um empresário de calçado e, quando faleceu de um ataque cardíaco, a fábrica estava no auge da sua produção. O encarregado era de confiança, Emilinha cedeu-lhe uma quota e nomeou-o gerente, e a velhota passou a viver do somatória dos rendimentos dos seus falecidos maridos.
Como a sua vida era vazia, preenchi-a com a vida alheia dos outros.
- O seu marido anda a sair muito cedo e o por vezes até à noite? – tentou confirmar o que seus olhos, por detrás das cortinas da sua janela ia se apercebendo.
- Não diga nada vizinha! Ando mesmo amofinada. Andam p´ra aí a dizer que o meu Nando anda enrabichado por uma moça do supermercado do Xico. Eu nem a conheço nem a quero conhecer. Mas p´ra mim isso é tudo mentira, o meu Nando não me fazia uma coisas dessas - disse Rosa um pouco exaltada.
- Eu também já ouvi falar disso! Mas a Rosa não ligue que é tudo mentira. É de raiva que elas falam. O seu Nando, apesar da idade é um pedaço de homem – disse dona Emilinha criando o clima propício para mais uma coscuvilhice.
- Não sei se será! Ele está a chegar a casa, quase sempre, entre as quatro e as cinco da manhã. Diz que vem de jogar cartas da casa de um amigo, que nem sei quem é - dona Rosa ia desabafando, dando argumentos para que dona Emilinha montasse um cenário de coscuvilhice que se aproximasse de uma de uma situação autêntica.
- Olhe vizinha, “ grandes males , grandes remédios”, diz o povo. Já ouviu falar do vidente Atomaim
- Não – disse Rosa
- É um vidente, que faz maravilhas nestes assuntos de amor. Eu até tenho aqui um papelucho com a morada e o que ele faz. Ora veja!
Dona Emilinha tira um papel do bolso, abre-o e entrega à Rosa.
PROF. ATOMAIM
Especialista com mais de 40 anos de experiência, conhecido em toda a África e Europa, com poderes para ajudar a resolver problemas como: sorte na vida, emagrecimento, saúde, justiça, inveja, mau-olhado, vícios da droga, negócios, impotência sexual, amarração , amor, etc.”
Seguia-se a morada e o número do telefone e a hora de expediente.
- Eu quero lá saber disso. Isso é tudo uma treta. Era o que faltava a consultar bruxos - desabafou Rosa.
-Não é Bruxo. É um vidente com muita clientela. Eu sei de casos resolvidos numa semana – acrescentou dona Emilinha. Se fosse um bruxo nem lhe dizia nada. A propósito a vizinha já alugou o quartinho que tem nas traseiras?
- Não. Ninguém lhe pega, dizem que é muito caro. Veja lá duzentos e cinquenta euros, cama, roupa lavada, água corrente, quente e fria e serventia de cozinha. Também não me preocupo, com as reformas minha e do Nando, não temos preocupações – justificou Rosa
- Nunca se sabe o dia de amanhã! As coisas podem mudar! - Emilinha ia envenenando .
- Por favor dona Emilinha não venha levantar falsos testemunhos sobre o meu Nando – disse Rosa já irritada.
- Eu! Credo ( benzeu-se três vezes), se a minha boca se abre para essas coisas. Cada um trate de si. Ainda bem que o meu Venâncio já foi andando, assim não tenho que me consumir com essas coisas – disse Emilinha com ar contristado.
- Mas pelo sim e pelo não, dê-me o nome do bruxo, ou vidente, como você diz. Só que não tenho onde apontar.
- Aponte nesse papel vegetal que tem ai, das suas costuras, com esse lápis vermelho. Carregue bem que é para não se perder nada – insistiu dona Emilinha vendo que o seu plano ia resultar. A casa é fácil de encontrar, fica na Rua do Cerco 10; é aquela rua estreitinha que vai dar ao cemitério. Tenho que me ir embora porque tenho muito que fazer, até logo Rosa.
Dona Emilinha lá foi ladeira abaixo, gozando com o desespero incontido da sua vizinha, enquanto Rosa ficou a cismar:
Será mesmo verdade que o meu Nando anda metido com aquela serigaita do supermercado. Ele já desmentiu tudo, jurou por tudo o mais sagrado que tinha que era mentira.
Mas a desconfiança aumentava e o coração já lhe começava a doer.
A ideia de ir ao vidente começou a tomar forma na sua conturbada cabeça. Tinha a direcção e numa das ausências de casa do Nando ia à consulta do tal professor. Lembrou-se que estes “indivíduos” pedem sempre uma peça de roupa e ela lembrou-se que tinha mas cuecas do Nando, e meteu-as num saco plástico. E no dia seguinte aproveitando, até parecia de propósito, o facto do Nando não vir almoçar, deitou pés ao caminho. Por sinal a morada não era longe.
                                                                                                                            (continua)
2º Capítulo - O desencontro de moradas.
Bateu à porta. Apareceu uma Jovem, muito bem arranjada, com uma farda azul claro.
- Dona Rosa desdobra o papel e pergunta:
- É aqui a “ MIA MOTA”?
- Claro. Faz o favor de entrar – disse a empregada muito solícita.
Rosa ficou espantada com o que viu. Não esperava encontrar toda aquela aparelhagem, alguma já sua conhecida. Com certeza que se tinha enganado, ou a dona Emilinha deu-lhe a direção errada, capaz disso era ela.
- Sabe...- dirigindo-se à empregada - tenho a impressão que não este local que me indicaram...
- Claro que é! – disse a dona do estabelecimento que entretanto apareceu. Sei perfeitamente ao que vem. Nós as mulheres sabemos como são as coisas, e cada dia é pior. Quando sair daqui não se vai reconhecer.
- Mas aqui é a casa daquele senhor...que faz...aquelas coisa...não sei bem como explicar...
- Com certeza é aqui mesmo, e estamos aqui para a servir. O patrão hoje não está, mas pode ter a certeza que vai gostar do nosso serviço, somos muito competentes.
Rosa não resistiu. Sentaram-na numa cadeira, arranjaram-lhe o cabelo, trataram da pele da cara, pintaram- lhe os olhos, arranjaram-lhe as unhas, seguiram-se outros tratamentos...quando Rosa se olhou ao espelho não se reconhecia. Estranhamente , ficou entusiasmada e o Nando vai gostar, andava sempre a dizer que não me arranjava. Mas não era propriamente isto que tinha vindo à procura, até tinha trazido as cuecas do Nando, que para ali nem foram chamadas.
Pagou a conta e saiu, pior do que entrou. Além do mais a conta foi uma “nota preta”.
Quando ia no caminho de regresso, Rosa pensava: “Então para que eu trouxe as cuecas. Afinal aquilo não era a casa de um bruxo ou vidente, aquilo parecia mais uma cabeleireira: queres ver que me enganei? Mas não está aqui bem escrito “MIA MOTA”.
Quando entrou em casa, já lá estava o Nando que quando a viu, deu um salto de espanto.
- Sim senhor! Até que enfim te decidiste arranjar, parecias uma velha dos contos infantis. Agora sim pareces uma senhora. Estou a gostar. Assim até pareces a esposa do Fernando Morgado.
Apesar de todos os elogios Rosa estava irritada. Não era isto que a Emilinha lhe tinha dito. Será que a velha anda a gozar comigo. Isto não fica assim a Emilinha vai ter que me explicar tudo “timtim por timtim”.
- Rosa, hoje não venho jantar – disse Fernando
-O quê? – perguntou Rosa
-É que tenho um encontro com uns amigos da tropa, já não nos vemos há muitos anos, e tu sabes as amizades da tropa são eternas. Vamos fazer um jantar que deve acabar tarde, por isso não esperes por mim – deu o recado e saiu.
O safado vai estar com a serigaita!” – pensou de imediato Rosa.
A noite terminou entre lamentos e choros, mas Rosa estava bonita como nunca esteve, mas para quê tanta “ produção” para dar em nada.
                                                                                                                                  (continua)
3º Capítulo – Engano desastroso.
Emilinha por detrás das cortinas vigiava a casa de Rosa, atenta ao abrir das persianas da vizinha. Mal isso aconteceu, colocou o xaile sobre os ombros e saiu de casa.
Bateu à janela da Rosa. Esta abriu um pouco espantada, porque não era normal baterem-lhe nas vidraças.
- Dona Emilinha podia bater à porta.- disse Rosa
- Não queria incomodar, podia o senhor Fernando estar a dormir. – justificou Emilinha. Então e a consulta, gostou?
- Qual consulta! A dona Emilinha anda a mofar comigo. Aquilo era um cabeleireiro – disse zangada Rosa.
- Já vi que está muito jeitosa. Mas tocou no número 10 – 2º andar? – perguntou Emilinha.
- Eu toquei no número 10 mas no rés do chão - explicou Rosa
- Mas aí é o salão de beleza da Mia Mota – disse Emilinha, rindo interiormente do engano da vizinha.
- Mas é o que estava no papel. Ora veja? – entregou o papel à Emilinha.
- Ó dona Rosa, a senhora leu o papel ao contrário. Como o papel era vegetal, você leu pelas traseiras do papel e claro em vez de ler ATOMAIM leu MIAMOTA, que é a palavra escrita da direita para a esquerda. É preciso ter azar. Mas deixe lá que eu vou lá consigo – disponibilizou-se Emilinha.
- Nem pense. Nunca mais vou para esses lados. Esta ficou-me de escarmenta. E o que é que o bruxo ou vidente ia dizer: “ que era tudo mentira, que o meu Nando era fiel, e que não existia Sónia nenhuma no nosso caminho”- clarificou Rosa
- Se não existe nenhuma serigaita, como sabe que ela se chama Sónia ? – perguntou com ar velhaco dona Emilinha.
- Eu disse Sónia? – se disse já nem me lembro - disse Rosa um pouco atrapalhada.
Dona Emilinha interiormente ria-se das aflições, cada vez mais evidentes da vizinha. O caso estava-lhe a dar-lhe um gozo. Era uma autêntica telenovela, para melhor.
- Mas tenho uma boa notícia para lhe dar, aluguei o quartinho a uma moça – disse Rosa.
- Já ouvi dizer. E dizem que é muito boa moça e trabalhadeira – acrescentou Emilinha.
Como é que ela sabe estas coisas todas, o raio da velha”- pensou Rosa.
- Hoje já fica cá a dormir. Chama-se Sofia, e é muito simpática. Um amor de rapariga. Acho que nos vamos entender muito bem. O Fernando também gostou dela. – disse muito satisfeita Rosa .
- Ó dona Rosa por um bocadinho que era Sónia, como a outra!- disse Emilinha espicaçando a vizinha,
- Não tem nada a ver. Uma coisa é Sónia outra é Sofia.
- Se o senhor Fernando gostou já é meio caminho andado! – disse Emilinha
- Meio caminho andado p´ra quê ? - perguntou curiosa Rosa.
- Para se darem todos bem !– explicou ironicamente a velhota.
- D.Emilinha tenho muito que fazer, não posso estar aqui a dar à língua. Não tarda que chega aí o Nando e eu tenho que lhe dar de comer. Falamos mais tarde, tá bem dona Emilinha – despachou Rosa
- O tempo também escambou e vou aproveitar para ir ao supermercado do Xico fazer umas compritas. Até logo Rosa.
A velhota mais uma vez lá foi calçada abaixo a engendrar mais uma cena para a sua novela cor de Rosa.
                                                                                                                                  (continua)
4º Capítulo – A esquisita doença de Fernando.
Os tempos iam correndo, numa paz podre, porque Rosa , pelas atitudes do marido, já não tinha dúvidas que algo se passava e a velhaca da dona Emilinha sabia mais do que contava. Esperava mais dela, a viver há tantos anos frente, até assistiu á morte dos três maridos.
A velha gostava de se meter na vida alheia, isso toda a gente do bairro sabia, mas porque quer arranjar problemas com o seu Nando.” - pensou Rosa 
- Então vizinha, a sua hóspede tem-se portado bem? – perguntou dona Emilinha quando chegou à porta da casa de Rosa que limpava o passeio. 
- É muito simpática e quando chega a casa ajuda-me muito – disse Rosa com ar satisfeito. - O Nando até disse que devíamos baixar a renda. 
- Se o senhor Fernando acha... lá deve ter as suas razões - alvitrou dona Emilinha.
- Lá vem você com essas “bocas foleiras” – respondeu Rosa.
- Não se pode dizer nada que você fica logo toda amofinada, cruzes Rosa, uma pessoa nem pode ser sincera – acrescentou a velhota.
- Sabe o que me está a preocupar é o Nando! – disse Rosa com ar que notava preocupação. 
- Mas o que se passa? – a velhota ficou logo com todos os cinco sentidos em alerta.
- O Nando agora todas as noites, entre as quatro e cinco da manhã vai para o quarto de banho e está para lá quase uma hora e depois vem muito chateado. Eu até outro dia lhe perguntei: - Ó Nando o que é que se passa contigo?
  - Não ando bem. Tenho dificuldades em urinar. Estou no quarto de banho um tempo infinito para fazer umas pinguitas, isto deve ser próstata. Tenho que ir ao médico . 
- Olhe dona Rosa, eu conheço um vidente o Prof Zarangha,não é o mesmo, é outro que para essas coisas dos “baixos” é um espetáculo. É cura certa. – disse dona Emilinha muito prazenteira.
- Não venha você outra vez com videntes, desta vez vai ao médico da bexiga. Até já marquei consulta no centro de saúde. - disse categoricamente Rosa. 
- Isso não serve para nada. Enchem-no de remédios que faz bem a bexiga e estraga outra coisa qualquer, se calhar mais importante - disse Emilinha com ar galhofeiro. 
- Seja como for. Desta vez vai ao doutor. Nada de bruxarias. Já chegou. 
- O tal videnteque lhe falei, tens umas ervas, que ele manda vir de fora, que é uma maravilha. Então para casos de bexiga, se é o caso, aquilo é um correr para a casa de banho, é uma torneira aberta, que nem lhe digo – esclareceu Emilinha, rindo-se. Mas a Rosa é que sabe! Vou fazer umas compritas ao supermercado do Xico. É verdade, outro dia vi lá o seu marido! O meu Nando é amigo do Xico, o que é que isso tem a ver? - oerguntou Rosa.
-  Curiosidades... curiosidades - e Emilinha desandou .
                                                                                                                           ( continua)
5º Capítulo – Identidade descoberta.
Sempre atenta ao que se passava, Emilinha por detrás dos cortinados de casa, tentava saber quem era a tal Sofia, porque nunca a tinha visto, e a curiosidade era enorme. Mas Sofia devia sair pelas traseiras da casa porque por aquela porta nunca saiu.
Colocou o xaile e saiu. Bateu à porta da casa de Rosa. Quem veio atender foi o marido.
- Bom dia senhor Fernando, não tenho visto a Rosa, passa-se alguma coisa com ela? - perguntou interessada Emilinha.
- Não. Anda um pouco mal disposta, com umas dores nas costas por causa da costura, mas daqui a uns dias já deve estar boa. Muito obrigado pela sua atenção dona Emilinha. E zás ...fecha-lhe a porta na cara.
Dona Emilinha sentiu-se muito ofendida, ficou vermelha como um tomate só de tanta raiva.
Isto não fica assim, vais ver Fernando o que te vai acontecer, não sabes com quem te meteste”- prometeu Emilinha.
Emilinha lá foi ladeira abaixo, a ruminar os desafores do senhor Fernando. Foi ao supermercado do Xico e mesmo sem dizer bom dia, disparou:
- Senhor Xico como se chama a sua empregada?
- A dona Emilinha sabe que ela se chama Sónia - respondeu o dono do supermercado.
- É o seu nome completo?
- Não. O nome completo é Sónia Sofia Santos Sá– respondeu o senhor Xico.
- Bem me parecia que havia marosca na história - disse Emilinha.
- A que se está a referir? - disse o senhor Xico.
- Quem disse à sua empregada que a dona Rosa tinha um quarto para alugar? - perguntou Emilinha. 
- Fui eu, soube pelo senhor Fernando. - respondeu o senhor Xico.Obrigado – estou inteirada, aliás inteiradissima, disse Emilinha.
Vou falar com o vidente o Prof. Maxumgua para fazer um trabalhinho daqueles em que ele é especilista...isto vai dar uma confusão Emilinha,...que vais ter para contar. ” - pensou Emilinha
                                                                                                                               (continua)
6º Capítulo – Desfecho fatal.
Estava Emilinha a controlar os movimentos da casa em frente por entre os cortinados, quando para seu espanto vê junto à casa de Rosa um táxi parado, com o porta bagagens aberto e a Rosa a meter uns embrulhos para dentro da mala com ajuda do taxista. Fernando estava encostado a um umbral da porta com a cabeça baixa e sempre que Rosa saía de casa ele tentava falar com ela, mas sem resultado. Era evidente que estavam zangados.
Emilinha colocou o xaile pelas costas e saí de casa.
- Mas o que é que se passa dona Rosa? - pergunta Emilinha.
- Pergunte a este traste? O traste era o Fernando.
- Mas senhor Fernando o que se passou? - perguntou muito interessada Emilinha.
- Dona Emilinha peça à Rosa que não se vá embora! Eu não posso ficar sozinho – disse Fernando quase suplicando.
- E qual a razão para a Rosa se ir embora ?– perguntou Emilinha.
- A Rosa desconfia que eu ando metido com a Sofia. Viu-me a sair do quarto dela na última noite, mas não foi nada. É que ouvi um barulho e fui só espreitar. A Rosa não acredita.
Entretanto Rosa vinha de dentro de casa com mais uma mala.
- Ó Rosa você não pode ser tão desconfiada. Então o senhor Fernando só foi saber qual era o motivo do barulho.
- Ó dona Emilinha, não venha com coisas. Para ver o motivo do barulho era preciso estar lá quase uma hora. Devia ser uma grande barulheira, isso digo eu! - disse Rosa desatinada.
- Mas a Rosa para onde vai? Eu conheço um vidente que nestas coisas de zangas de marido-mulher é uma sapiência. Trata tudo numa semana. Eu tenho experiência. Aconteceu com o meu Venâncio. Tivemos um problema fomos falar com ele e estava tudo a correr tão bem não fosse o caso do Venâncio ter o ataque cardíaco. Pense no que vai fazer? - dona Emilinha tentou conciliar.
- Olhe D.Rosa vou para Lisboa para casa da minha irmã Jacinta que está a fabricar pastéis de nata e a exportar para o estrangeiro e têm ganho bom dinheiro. Como não tem mãos a medir já me tinha pedido que a fosse ajudar. Isto vem a propósito. O Nando que fique com a Sónia, com a Sofia, com o raio que o parta e a D. Emilinha vai-lhe arranjando videntes ou bruxos porque ele vai precisar.
Fernando estava inconsolável. Agarrava-se a Rosa, puxava para D. Emilinha para dentro de casa para convencer Rosa. O taxista já tinha sido mandado embora por duas vezes pelo Fernando. Mas Rosa mal o homem se metia no carro, perguntava-lhe onde é que ele ia. E o homem saí do carro e ficava encostado à porta a ver no que aquilo dava. A vizinhança perante o alarido ia-se aproximando e comentando. Fernando refugiou-se em casa. Emilinha prostrou-se à porta.
Se a Rosa vai embora lá vão os meus negócios com os videntes. Eu que até tinha encomendado um trabalhinho ao Prof. Maxungua que ia por a Sónia /Sofia fora de casa num instante, e agora...pumba...lá se foi o trabalho” - pensou Emilinha.
Rosa saiu de casa com mais um embrulho, meteu-se no táxi, apesar da resistência de Fernando que se colocou à frente do tàxi, mas desistiu, perante duas aceleradelas do taxista.
Fernando encostado à casa era um homem desalentado, comprometido, comentado,angustiado e sem rumo.
- Deixe lá senhor Fernando, você perdeu a Rosa, mas arranjou logo duas lindas moças – A Sónia e a Sofia, o que é que você quer mais! Se precisar de algum conselho dos meus videntes é só dizer que estou sempre disponível. Ó homem, a vida são dois dias, e quanto menos se espera uma pessoa já está de “pés para a frente”, olhe o que aconteceu com o meu Venâncio foi um ar que se lhe deu. Mas se quiser que a Rosa volte eu conheço um vidente, não é nenhum daqueles com  quem eu trabalho, é um espanhol , mas fala muito bem o português, por isso é só dizer-me.
Fernando já não a ouviu, bateu com violência a porta de sua casa.
Homem atrevido dura como vaso de vidro”
E lá foi dona Emilinha pela calçada abaixo a meditar neste proverbio popular.
Fim

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