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Trata-o bem Antónia, não sei quando, mas um dia voltarei.
- É o
teu karma! – Dissera a única amiga de quem se despediu depois de lhe confiar
Van Gogh, o rafeiro que recolhera ferido na rua.
Karma ou
não, mais uma vez terminava uma relação e batia a porta. Não conseguia
continuar a viver com alguém que, mesmo dizendo amá-la, sofria. Melhor seria,
mesmo sangrando, afastar-se e dar espaço a que o outro tentasse ser feliz.
Já não
estava ali a fazer nada! Encheu duas malas com aquilo que no momento lhe
parecia importante, e saiu. Felizmente a herança da mãe dava-lhe um desafogo
tal que, naquele momento, poderia ir para onde quisesse, viver onde quisesse,
cometer todas as loucuras que lhe apetecessem. Não viveria tempo suficiente
para gastar toda aquela fortuna …
Maldita
herança! - pensava ao olhar-se no espelho do elevador. Será que o dinheiro
realmente a teria tornado déspota como Paulo lhe gritara durante aquela que
seria a ultima discussão?
Em que
pessoa amarga se tornara a ponto da pessoa que mais amava no mundo traduzir por
despotismo os seus gestos de amor? Será que ele conhecia a palavra generosidade?
A chuva
da manhã lava-lhe as lágrimas. Entra no táxi. No aeroporto decidirá que rumo
tomar. O taxista, olhando pelo retrovisor, pergunta-lhe se ela se sente bem e
ela desculpa-se que no Outono tem muitas alergias.
O táxi
contorna o jardim. Há idosos que jogam jogos de sorte e azar e outros que os
observam em pé fazendo apostas. Faz sinal ao taxista que encoste e espere. Tem
uma coisa para fazer antes de seguirem.
Aperta o
impermeável, levanta a gola e fixa o olhar na desolação do jardim pintado de
tons marron, saudosa do verde do Verão. Senta-se no banco húmido onde se
encontrara com Paulo pela primeira vez, naquele dia em que sentira que a vida
nunca mais seria a mesma e que com ele todas as coisas seriam possíveis.
Onde irá
agora arrumar essas ilusões? E arrumando-as, como irá ocupar o vazio imenso por
elas deixado? Pela primeira vez sente medo. Um medo enorme de não sobreviver a
essa paixão … e deixa-se escorregar pelos corredores da sua mágoa, quando o som
de um telemóvel a trás à realidade. Não é o seu. Esse ficara no saco no banco
do táxi. Vê o aparelho caído e não resiste à tentação de atende-lo:
- É para
hoje. O sítio do encontro vou-to indicar dentro de meia hora para esse telemóvel – diz uma voz sensual de mulher.
A
primeira reação é deixar ali o telemóvel que não é seu, mas apenas sorri. Essa
voz de mulher parece vir do Além. Mete o telemóvel no bolso, dirige-se ao táxi
e diz:
- Mudei
de planos. Desça até á Ribeira e siga pela marginal até Matosinhos. Só dentro
de meia hora saberei o meu destino.
Durante
o percurso vai recordando uma a uma as noites de cumplicidade que aquelas águas
testemunharam no Verão passado, quando de mãos dadas ela e Paulo (re)descobriam
a cidade em longas caminhadas noturnas.
Tece
assim uma malha de memórias com que vestirá o seu luto.
Entretanto
o telefone toca de novo e a mesma voz sensual diz:
- O
encontro é às 16h00 no Hotel do Buçaco, quarto 126. O chefe diz para não te
esqueceres do material.
Teresa
inebriada pelo mistério sorri, pensando que nada acontece por acaso. Tem um
telemóvel para entregar. Tira da mala o estojo de maquillage e, enquanto tinge
de vermelho os seus lábios sequiosos de ternura, diz:
- Vamos
para o Buçaco!
GODIVA –
18/10/2012

jomanlo26 de Outubro de 2012 10:03
ResponderEliminarO que um telemóvel pode ocasionar? De um amor destroçado, o mistério renvova a esperança de uma nova vida. Será no Buçaco?
Que tudo corra bem, e que não se esqueça de ir buscar o VanGogh.
Gostei muito.
Célio Passos
Carmita28 de Outubro de 2012 01:20
ResponderEliminarParece que o destino é mesmo ficar por perto e continuar a passear o Van Gogh! Eu cá nunca mais me sento num banco de jardim sem espreitar se por perto me observa algum telemóvel! ahahahah!