por
Lordopio
José Lobo tinha estado a magicar temas para o lançamento de
mais um trabalho no âmbito do blogue por ele criado «Na Companhia Dos Outros».
Trata-se de uma iniciativa que reúne pessoas que gostam de escrever coisas
sobre coisas. Estava cansado e o entardecer cheio de sol e calor convidava a
uma saída da cidade do Porto. Esperou o verde dos semáforos e atravessou Antero
de Quental em direção ao jardim.
Deu uma
vista de olhos ampla e optou por um banco que tinha um pouco de sombra. Apesar
de serem quase seis horas da tarde o sol ainda ardia. Sentou-se contente. Tinha
conseguido resolver todos os assuntos pendentes e agora apenas tinha que
aguardar as respostas dos membros escritores.
De
braços esticados longitudinalmente na costa do banco, ocupando o seu centro e
de perna cruzada, José Lobo sorria. Sentia um legítimo orgulho na incontestável
imaginação que tinha e lhe reconheciam.
Situado
a Este da praça, o banco permitia-lhe observar um edifício dos anos quarenta
projetado por um arquiteto holandês que soube desenhar a fachada da forma
típica portuense. A sua deambulação é vagamente interrompida por um som.
Desperta
e percebe o toque de um telemóvel. Instintivamente deita a mão ao seu pousado
no banco junto com as chaves. Claro que não é o seu toque. Dirige o olhar para
a origem do som e descobre o aparelho no chão, por detrás do banco. Hesita por
um instante mas como homem curioso que é, decide apanhá-lo e atender.
- Sim?
- “É
para hoje. O sítio do encontro vou-te indicar dentro de meia hora para esse
telemóvel.” - diz a voz sensual de uma mulher. Ia explicar que não era o
proprietário do aparelho mas já não adiantou. A chamada tinha sido desligada
Rui
Barbosa vem calmamente a descer a rua Antero de Quental com a mochila às
costas como sempre. Anda apreensivo com a saúde da mãe que se tem deteriorado
bastante. Vive com ela desde que se divorciou, já lá vão uns anos. Por essa
altura decidiu deixar de usar e fazer uma série de coisas; uma delas foi
abandonar o automóvel. Passou a andar a pé o mais possível.
Chega à
Praça da República. O dia está excelente com sol e calor. Tinha almoçado bem. A
mãe odiava cozinhar e ele saboreava isso todos os dias, mas hoje o arroz de
frango estava bem feito e bom. Pena que ela não saiba porquê. Olha para um
banco virado a Este e escolhe-o para se sentar. Contempla um conhecido edifício
dos anos quarenta projetado por um arquiteto holandês que soube desenhar a
fachada da forma típica portuense.
Tem
trabalho para fazer no gabinete de Arquitetura mas apetece-lhe fazer uma pausa.
Frequentemente depois de almoço, faz pausas em diferentes sítios. Chama-lhes
momentos de «contemplação» e acha-os «imprescindíveis» para um arquiteto. Hoje
tem um encontro com um especialista estrangeiro em domótica mas não sabe onde
nem quando.
Mete a
mão ao bolso e tira o telemóvel. Saltita o polegar no ecrã táctil e leva-o ao
ouvido.
- Estou,
Andreia?
- “Sim?”
– respondeu a voz sensual de uma mulher.
- Olá.
Sou eu. – Andreia é a administrativa do gabinete. É uma excelente profissional
e são cúmplices em quase tudo.
- “Olá.
Então, o almoço hoje estava razoavelmente intragável?”
- Não!
Hoje estava bom e comi imenso. Por isso estou aqui sentado na praça da
república em momento de con…
- “…
contemplação! Já sabia. Quando não chegas cedo estás em contemplação.”
- Como
me conheces bem… daqui a pouco estou aí. Novidades?
- “Nop!
Ainda não sei nada do encontro com os tipos da Zigbee. O chefe ainda não me
ligou.” – O chefe é a alcunha do representante Português da marca alemã que
promovera este encontro quando lhe apresentara o problema de domótica que tinha
que resolver num projeto em mãos. Um tipo fiável mas impulsivo. “Já tenho
comigo o material para levares: tenho uma amostra de cada cor que queres usar.
Se ele entretanto ligar aviso-te. De resto está tudo calmo.”
- Já te
disse que se tivesse dinheiro gostaria imenso de te triplicar o salário, pois.
- “Sim…
ultimamente deu-te para me gozares dessa forma indecente; que é que eu hei-de
fazer… “
- Estou
a falar a sério. Até… – Mas já tinha desligado.
Mete o
aparelho no bolso.
José
Lobo olha o visor e sente a pele suada. Está tenso. Efabulações galopam a
sua imaginação desenfreadamente. Ainda esboça o gesto de deixar cair o aparelho
no sítio onde o encontrou mas recua. Uma mente daquelas não pode deixar escapar
uma aventura tão excitante.
Mete-o
no bolso das calças e dirige-se para casa. Faltam ainda uns minutos para a nova
chamada. Tira-o e pousa-o em cima da mesa de apoio em frente do sofá onde se
senta a fabricar cenários que encaixem no “caso”. O telefone volta a tocar e
Lobo atende:
- Sim?
- O
encontro é às 16.00 horas no hotel Napoleão, quarto 124. O chefe diz para não
te esqueceres do material”.
- Mas… - mais uma vez a chamada é
desligada quando ia tentar explicar que não era o proprietário do
telemóvel.
FIM
Nota:
Qualquer semelhança com pessoas ou factos reais é mera coincidência.

Um conto bem arquitetado. A trama entre os dois telemóveis está bem urdida.Entre a espera e o desespera,o pensamento vagueia num momento de volúpia.
ResponderEliminarGostei.
Célio Passos