domingo, 21 de outubro de 2012

13 - REALIDADE DISTORCIDA

 
 
 
                                                                                                                               por Célio
 
Edmundo Sobral administrador de uma holding, sai da empresa e entra no automóvel, julgando que era o seu, apesar de estranhar não o ter deixado no habitual lugar de estacionamento. A saída tinha como destino uma outra empresa do grupo, para uma importante reunião. Só deu pelo engano quando procurava os óculos de sol no porta luvas.
Saiu do automóvel e verificou, efetivamente, que não era o seu. O automóvel era do seu sócio Abílio Tavares. O que se passou não encontrou qualquer explicação.

Um carro da polícia passa por ele a apitar, e, instintivamente, com sentimento de culpa, esconde-se atrás do guarda lamas. Nesse momento vê uns sapatos de um policial junto de si. Quando levanta os olhos, o polícia diz:

- Não vale a pena esconder-se, o senhor não pode estacionar aqui. Faz o favor de circular.

- Senhor guarda, vim verificar este pneu porque o carro vinha a fugir-me!- desculpou-se.

Meteu-se no carro, aborrecido com o que tinha acontecido, desmarcando por telemóvel a reunião. Fez inversão de marcha e dirigiu-se à rotunda que dava para a empresa. A saída era na segunda rua à direita, mas, talvez por distração, ou por uma razão que ainda hoje não consegue descortinar, entrou na terceira à esquerda que levava ao centro da cidade. Estava a rememorar qual seria o melhor caminho para regressar à empresa, quando um semáforo passou a vermelho. Parou o automóvel.

Estava a olhar para o semáforo colocado à sua esquerda, quando ouve a porta do lado direito a abrir-se e entrar uma mulher. Era Odete, a esposa do Tavares.

- Estava a ver que nunca mais chegavas? – disse Odete com ar irritado.

Edmundo não reagiu. Não sabia o que aquilo queria dizer. Olhou para o espelho retrovisor que estava, estranhamente, virado para si, e viu refletida a cara do sócio, do Tavares. Instintivamente olhou para o banco de trás; não estava ninguém.

-Vais ficar aqui especado?...o sinal já está verde. Leva-me ao shopping.

Edmundo olhou novamente para o espelho retrovisor que continuava na mesma posição e, de novo, refletiu a cara do Tavares.

- Não sabia que tínhamos combinado este encontro? – disse receoso.

Para seu espanto, a voz que saiu era a do Tavares, aquela voz rouca, inconfundível. O que se estava a passar não era real. Gotas de suor começaram a perlar a sua fronte.
- Claro nunca te lembras de nada. A propósito, já te disse, e espero não voltar a repetir, que tens que resolver o problema da sociedade com o Edmundo. As empresas estão cada vez estão pior, e qualquer dia vamos à falência – disse Odete

- Mas o Edmundo é um bom profissional, e as empresas estão a progredir, ao contrário do que tu dizes – disse o que na realidade sentia, apesar de ser uma autodefesa, com aquela voz que não era a dele.

- O Edmundo só pensa na caça e na pesca. Devias associar-te mas era ao Celso Moreira- disse Odete.

- Mas quem é o Celso Moreira? - perguntou curioso.

- É o ex-marido da minha amiga Paula, é um expert na matéria. É formado em gestão de empresas, esse sim, e que era um bom sócio! – disse Odete com ar convencida, não justificando as razões, talvez não fosse conveniente estender-se muito em explicações.

Edmundo olhava-se ao espelho e a resposta refletida era a mesma – Abílio Tavares.

- Deixa-me aqui! - disse Odete.

Parou o carro e Odete saiu sem se despedir
Edmundo estava atónito. Olhou-se de novo ao espelho e com satisfação viu refletida a sua imagem. Voltou. Era ele Edmundo. Abriu a janela e perguntou a um transeunte onde ficava a rua do Paraíso, sabendo ele, perfeitamente, que era a próxima à direita. Mas a razão era outra. Efetivamente, a sua voz tinha voltado. Voltava a ser de novo o Edmundo.
Apesar de contente, ficou apreensivo. O que se tinha passado teria sido uma visão? um fenómeno paranormal? ou nada daquilo se tinha passado?. Talvez excesso de trabalho. Já não se lembrava o que eram férias. Talvez fosse conveniente visitar o seu psiquiatra.

Afinal, havia explicação para o sucedido com a troca dos automóveis. Os automóveis eram da mesma marca, cor, cor de estofos, e tudo o mais; só não se compreendia a razão da chave ter o mesmo código.

O Tavares já tinha dado por falta do carro e não ficou admirado ao ver o colega a entrar na empresa. Edmundo contou o sucedido que foi motivo de grande galhofa.

Baralhado com o rol de acontecimentos, voltou ao trabalho. Quando chegou ao gabinete, a secretária disse que tinha um senhor na sala de espera aguardando-o para uma reunião.

- Não me lembro de ter marcado qualquer reunião? Disse quem era? - perguntou Edmundo

- Não!- disse a secretária.

Edmundo dirige-se à sala de espera, entra, e o homem que o aguardava tinha à volta de 45 anos, bem vestido, com ar agradável.

- Sei que não nos conhecemos doutor Edmundo. Sou Celso Moreira e vou direto ao assunto. Tenho uma proposta a fazer-lhe que penso ser muito vantajosa para o doutor, diria irrecusável.


Edmundo nada disse. Sentou-se e sorriu.

                                                                                                                         









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