segunda-feira, 16 de julho de 2012

9 - A CARTA POR CÉLIO PASSOS


                                                                                Por Célio Passos

                                                                                              Barcelos, 1 de Setembro de 1962

Ritinha

           Espero que ao receberes esta carta te encontres bem de saúde, que eu estou bem,  mas cheio de saudades.

            Só agora percebi o significado, ou melhor, o sentimento que está ligado à palavra saudade. Dizem que é em português que ela tem a sua melhor expressão. Eu diria que em português e na minha pessoa. Ainda só ontem nos separamos e já morro de saudades. Não há um minuto, nas 24 horas, que não pense em ti, até sonho contigo, todas as noites. Sonho com esses olhos azuis da cor do mar, essa cor de pele que apetece acariciar e esses lábios cor de carmim que apetece... estava a imaginar !

             Dizem que o tempo passa depressa, não é verdade ! ele escorre lentamente; os ponteiros dos relógios parecem parados; o sino da igreja, minha vizinha, que badala todos os quartos de hora, deixou de ter esse ritmo. Desejo que a vindima na quinta do teu pai, na Régua, corra depressa, que é para te ver o mais breve possível.

            Estive a ver as fotografias que tiramos na Póvoa, onde passámos um verão inesquecível.

            De tudo, só não gostei da tua primita que só queria jogar ao “ prego”, estava sempre na esperança que o maldito prego se desintegrasse. E também da tua tia Antónia, com aqueles óculos de tartaruga, não tirava os olhos de cima de nós, até metia medo.

            Gostava mas era da hora do banho, fugindo aos olhares fiscalizadores da tua família, entravamos no mar de mãos dadas. Tu tinhas medo das ondas e estavas sempre a agarrar-me, e eu gostava disso. Mas mal entravamos na água já estavam a dizer para sairmos, que raiva aquilo me metia. Mas para nos consolarem lá vinha uma “língua da sogra” ou jogávamos na roleta dos “barquilhos”, pelo menos tínhamos as mãos ocupadas. 

            E a cena das francesas? Recordas-te das francesas que apareceram com uns fatos de banho de duas peças que lhe chamavam bikini e o cabo-do-mar veio ter com elas e mandou-as vestir. Daqui a uns anos todas as moças vão vestir bikinis, e tu tens corpo para os usares.

            E as canções que ouvíamos no “picadeiro” frente ao café Guarda-Sol e ao Diana-Bar. Nunca me hei-de esquecer: o Paul Anka – You are my destiny. Sim, eu encontrei o meu destino – tu. Elegemos-la como a nossa canção.

            Um beijo, daquele que te adora,

             Rui

2 comentários:

  1. Não sei porquê, mas este Célio Passos tem uma fixação por olhos azuis....Porque será?
    Se esta carta não estivesse datada, seria fácil chegar lá, porque os pormenores são tão esclarecedores e ilustram tão bem a mentalidade da época, que foi um prazer voltar aos anos 60 para aquele verão com a voz do Paul Anka em voz de fundo....Ai que saudades!
    Obrigada por este regresso ao passado. mj

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    1. A fixação por olhos azuiis, tem uma razão de ser; A minha mãe tinha uns maravilhosos olhos azuis.
      Não tive espaço, mas era para acrescentar as músicas da Cello Campelo - Estúpido Cúpido, Banho de Lua, ou,dos Platers- Only you , and so on.

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