Por Célio Passos
Barcelos,
1 de Setembro de 1962
Ritinha
Espero que ao
receberes esta carta te encontres bem de saúde, que eu estou bem, mas cheio de saudades.
Só agora percebi o
significado, ou melhor, o sentimento que está ligado à palavra saudade. Dizem
que é em português que ela tem a sua melhor expressão. Eu diria que em
português e na minha pessoa. Ainda só ontem nos separamos e já morro de
saudades. Não há um minuto, nas 24 horas, que não pense em ti, até sonho
contigo, todas as noites. Sonho com esses olhos azuis da cor do mar, essa cor
de pele que apetece acariciar e esses lábios cor de carmim que apetece...
estava a imaginar !
Dizem que o tempo passa depressa, não é
verdade ! ele escorre lentamente; os ponteiros dos relógios parecem parados; o
sino da igreja, minha vizinha, que badala todos os quartos de hora, deixou de
ter esse ritmo. Desejo que a vindima na quinta do teu pai, na Régua, corra
depressa, que é para te ver o mais breve possível.
Estive a ver as
fotografias que tiramos na Póvoa, onde passámos um verão inesquecível.
De tudo, só não gostei
da tua primita que só queria jogar ao “ prego”, estava sempre na esperança que
o maldito prego se desintegrasse. E também da tua tia Antónia, com aqueles
óculos de tartaruga, não tirava os olhos de cima de nós, até metia medo.
Gostava mas era da hora
do banho, fugindo aos olhares fiscalizadores da tua família, entravamos no mar
de mãos dadas. Tu tinhas medo das ondas e estavas sempre a agarrar-me, e eu
gostava disso. Mas mal entravamos na água já estavam a dizer para sairmos, que
raiva aquilo me metia. Mas para nos consolarem lá vinha uma “língua da sogra”
ou jogávamos na roleta dos “barquilhos”, pelo menos tínhamos as mãos
ocupadas.
E a cena das
francesas? Recordas-te das francesas que apareceram com uns fatos de banho de
duas peças que lhe chamavam bikini e o cabo-do-mar veio ter com elas e
mandou-as vestir. Daqui a uns anos todas as moças vão vestir bikinis, e tu tens
corpo para os usares.
E as canções que
ouvíamos no “picadeiro” frente ao café Guarda-Sol e ao Diana-Bar. Nunca me
hei-de esquecer: o Paul Anka – You are my destiny. Sim, eu encontrei o meu
destino – tu. Elegemos-la como a nossa canção.
Um beijo, daquele que
te adora,
Rui
Não sei porquê, mas este Célio Passos tem uma fixação por olhos azuis....Porque será?
ResponderEliminarSe esta carta não estivesse datada, seria fácil chegar lá, porque os pormenores são tão esclarecedores e ilustram tão bem a mentalidade da época, que foi um prazer voltar aos anos 60 para aquele verão com a voz do Paul Anka em voz de fundo....Ai que saudades!
Obrigada por este regresso ao passado. mj
A fixação por olhos azuiis, tem uma razão de ser; A minha mãe tinha uns maravilhosos olhos azuis.
EliminarNão tive espaço, mas era para acrescentar as músicas da Cello Campelo - Estúpido Cúpido, Banho de Lua, ou,dos Platers- Only you , and so on.