1º Concurso INCDO
"Amores de Verão"
A Carta Vencedora
Meu amor, gosto de ti.
Sei que este «gosto de ti» não te basta, porque tu gostas de aumentar as palavras, de as tornar rotundas e preenchidas, como se fosse possível aumentar o meu sentimento por ti.
Simplesmente, gosto de ti.
Porque o amor não se mede com palavras, tal como o nosso mar não precisava de adjectivos.
Dizias-me, no verão passado: este mar é imenso!
E eu contrariava-te.
Não, não é imenso. É apenas o mar e o mar não tem grau de grandeza, é o Mar.
E tu viravas-me as costas de rompante, como uma criança teimosa, resmungando baixinho, é imenso, é ondulante, é infinito, é enorme, é grandioso, é vivo, é poderoso, é mortal, é azul, é misterioso, é real, é profundo… e ficavas tempos infinitos assim, como que a recitar um mantra budista, até esgotares todas as palavras, as do dicionário e as inventadas, até gastares todos os superlativos.
Depois…depois, corrias pela praia atrás das gaivotas.
As tuas gaivotas livres.
As minhas eram apenas gaivotas, Larus ridibundus.
Mas tu não. Tinhas de lhes conceder uma liberdade que elas não sabem sequer usar, porque são apenas gaivotas. E as gaivotas não podem ser livres, as gaivotas têm um destino para cumprir, por isso não são livres, porque se fossem livres voariam para outros destinos.
Como tu e eu.
Também não somos livres. Somos pessoas. Também não voámos para outros destinos.
Limitamo-nos a seguir o nosso, assim, como quem vê as ondas a rebentar na areia.
Tenho saudade de ti.
Como também sei que tens imensas saudades minhas, saudades que te corroem a alma, como tu dizes nesse exagero de palavras. As saudades não são plural, porque a saudade é sempre tanta que quer dizer tudo.
Saudade. Ausência de ti. Saudade.
Tudo seria tão simples se pudéssemos simplificar a vida como podemos simplificar o discurso.
Gosto de ti, meu amor. Para sempre.

Não há dúvida que é uma carta de amor "madura".Os protagonistas já tinham idade para não amuarem. Mas, isso também faz parte do Jogo.
ResponderEliminarNão gosto das gaivotas, pouco romantico. Eu colocaria no ambiente uns patos bravos, dos verdadeiros.
Sem dúvida a carta de um "Amores de Verão". Parabéns
OHHHHHHHHHHHHH !
ResponderEliminarMorro de inveja.
Queria tê-la escrito eu :-(
Parabéns !
Um texto belo, bem escrito, um queixume sobre as grandezas incompreendidas do amor que como o mar, esse mar, não precisa de superlativos porque, quando estamos apaixonados, é só mar. Parabéns, Maria José Azevedo. Julgo totalmente merecido o prémio. Parabéns. Há circunstâncias na vida que são dramáticas. Mas elas tem a virtude de estimular, nalgumas pessoas, brilhos que doutra forma nunca conheciriamos, atributo esse de todas as crises que é o renascimento. Parabéns.
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